Festa olímpica deixará ressaca de quase R$ 2 bi ao Canadá

Fonte: The New York Times
Data: 25/02/2010
Josie Lombardi foi ao centro de Vancouver nesta semana para observar os Jogos Olímpicos, mas em companhia de uma amiga, e não de seu marido, porque este está envolvido em um boicote à Olimpíada.


Ela ficou contente por ver de perto o burburinho olímpico, mas depois de ser informada de que o tempo de espera para ver uma exposição de medalhas olímpicas seria de cinco horas, Lombardi começou a conjeturar que talvez seu marido tivesse razão.

OK, será que a Olimpíada vale a pena?, disse Lombardi, em uma parada para almoço no Murchies, um venerável café e casa de chá. Não quero ser negativa demais, porque existe o lado bom e o lado ruim, mas preciso concordar com o meu marido. Ele não para de falar nas dívidas. Preocupo-me com o que acontecerá depois.

Embora centenas de milhares de pessoas estejam enchendo as ruas para desfrutar (algumas delas em excesso e até a madrugada) da festa olímpica, continua a existir um sentimento sufocado de rabugice e apreensão em Vancouver.

Vancouver sempre foi uma escolha estranha para o posto de capital mundial dos esportes de inverno por duas semanas. Entre os canadenses, a cidade é mais conhecida como a capital nacional da fuga ao inverno. Mas a hesitação dos moradores já era perceptível mesmo antes do calor inesperado e do sol que banhou os renomados parques e jardins da cidade neste inverno, fazendo com que as plantas e flores se abrissem luxuriantemente em pleno fevereiro.

Muito antes que os Jogos começassem, a recessão mundial já havia derrubado alguns de seus principais patrocinadores, entre os quais Nortel Networks e General Motors, duas empresas que entraram em concordata. O Whistler Blackcomb, o complexo turístico que sedia os eventos de esqui alpino, será vendido em um leilão.

Os custos de segurança, estimados inicialmente em US$ 165 milhões (R$ 300 milhões), estão se aproximando da marca do US$ 1 bilhão (R$ 1,82 bilhão).

Ainda assim, os organizadores insistem em que o orçamento operacional do evento não ficará no vermelho. Mas essa previsão inclui US$ 423 milhões (R$ 771 milhões) em assistência de emergência do Comitê Olímpico Internacional (COI), e informações financeiras detalhadas não serão divulgadas antes do encerramento do evento.

Quanto ao governo municipal de Vancouver e aos contribuintes da cidade, as más notícias já chegaram. O legado imediato da Olimpíada para essa cidade de 580 mil pessoas é uma dívida de quase US$ 1 bilhão (R$ 1,82 bilhão), contraída para resgatar o projeto da Vila Olímpica. Além disso, os moradores de Vancouver e da província em que se localiza, a Colúmbia Britânica, já estão sofrendo cortes em serviços como educação, saúde e financiamento às artes, de parte do governo provincial, que se viu forçado a cobrir muitos dos demais custos relacionados à Olimpíada. Muita gente, entre os quais Lombardi, antecipa que o custo deva crescer ainda mais.

Ainda que o estado de ânimo da cidade tenha melhorado depois de um começo em que muitos dos cidadãos locais pareciam estar sofrendo de remorsos de anfitrião, as realidades orçamentárias que se farão sentir de forma iminente tornam improvável que tudo seja esquecido ou perdoado.

Embora seja muito difícil calcular todos os custos, acredito que as pessoas terão de continuar pagando por muito tempo, disse Lee Fletcher, caminhando por uma alameda de cerejeiras perto de seu apartamento, em Stanley Park, um trecho de floresta preservado bem próximo do centro da cidade. Algumas pessoas se beneficiarão muito da situação, mas não os cidadãos comuns. O cidadão comum verá um aumento de impostos.

O cidadão comum, que não tem como arcar facilmente com os preços dos ingressos olímpicos - assistir às cerimônias de premiação, por exemplo, custa US$ 21 (R$ 38) mais taxas de serviço -, tem outros motivos para se queixar. A pira olímpica flamejante que Lombardi admirou estava inicialmente oculta por trás de uma cerca de segurança parecida com a de uma penitenciária. E até que o espírito local fosse abatido pela derrota no hóquei masculino diante dos Estados Unidos, um largo espaço do centro da cidade vinha sendo tomado a cada noite por farristas ruidosos, proporção espantosa dos quais aparentemente embriagados.

A tarefa de defender os Jogos acabou atribuída ao prefeito Gregor Robertson, que conquistou o posto em larga medida devido a uma revolta de eleitores quanto ao escândalo da Vila Olímpica, que levou à queda do governo de centro-direita que levou os Jogos para Vancouver.

O setor de incorporação imobiliária, que é poderoso na cidade, apresentou ao governo municipal um plano para a Vila Olímpica que aparentemente era bom demais para ser verdade - o que o tempo só confirmou. Uma incorporadora imobiliária financiaria e construiria o complexo em terrenos privilegiados que eram de propriedade do município. Depois da Olimpíada, a empresa converteria as construções em condomínios de luxo e pagaria ao governo municipal pelos terrenos. Vancouver não só teria sua vila, como sairia do projeto com lucro.

Mas estouros de custos, combinados à crise de crédito de 2008, destruíram a estrutura de financiamento. Assim que assumiu, Robertson teve de obter permissão especial do governo provincial para obter um crédito de US$ 434 milhões (R$ 791 milhões), a fim de concluir a construção. A cidade terminou arcando com a responsabilidade por cerca de US$ 1 bilhão (R$ 1,82 bilhão) em custos imobiliários, uma situação que resultou em rebaixamento de sua classificação de crédito.

Caso o mercado imobiliário de Vancouver se mantenha forte, a cidade poderia recuperar boa parte do dinheiro. Mas se o contrário acontecer, afirmou Robertson, a cidade terá de arcar com centenas de milhões de dólares em prejuízo.

Já que herdou a Olimpíada, Robertson está tentando extrair o máximo possível de vantagem do evento e da atenção que o cerca, para Vancouver, uma cidade atraente e que parece especialmente bonita na televisão. Mas até mesmo alguns dos partidários do prefeito estão preocupados, agora, com a possibilidade de que os Jogos representem antes um fardo que uma oportunidade.

A situação financeira pode ficar muito apertada, disse Chris Haddock, produtor e roteirista de uma série de TV muito elogiada pela crítica sobre a política de Vancouver, para a Canadian Broadcasting Corp. Algumas das coisas que eles desejam fazer, e desejam provar, terão de ser postergadas.

Robertson é franco quanto aos potenciais problemas que a competição causará à cidade, mas reconduz persistentemente a conversa ao seu objetivo de usar a olimpíada para atrair investimentos de empresas do setor ambiental, a fim de tornar a cidade um centro de tecnologia ecológica.

Kennedy Stewart, professor de administração pública na Universidade Simon Fraser, em Vancouver, e autor de muitos trabalhos sobre a política municipal, não parece convencido de que entreter potenciais investidores durante os jogos baste para resolver os problemas econômicos da cidade em longo prazo.

O setor de exploração florestal, no passado o cerne da economia local, foi devastado por uma praga de besouros, pelo colapso do mercado da habitação nos Estados Unidos e pela concorrência sul-americana. Embora produtoras de cinema e de software tenham se estabelecido aqui nos últimos anos, elas não têm o mesmo impacto econômico.

O que Vancouver tem de substantivo a oferecer, além de belas montanhas e imóveis de preços absurdamente exagerados?, questiona Stewart. O setor florestal está em colapso, e com isso de onde virá o dinheiro, se excetuarmos cooperativas de plantação de maconha?

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