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21/11/2008 - 00:45:16
Sites de notícias tomam lugar de jornais impressos nos EUA
Ao longo dos últimos dois anos, alguns dos segredos mais sórdidos da cidade vieram à tona - oficiais da cidade com conflitos de interesses e aumentos de salários encobertos, moradia popular que não tinha preço acessível, estatísticas criminais ilusórias.
As investigações começaram. Os chefes de duas agências de reurbanização foram forçados a se demitir. Um deles enfrenta processos criminais. Contudo, as principais revelações não vieram da televisão, do rádio ou do principal jornal de San Diego, The Union-Tribune, mas sim de um grupo de jovens jornalistas de um site sem fins lucrativos, operado a partir de uma antiga base militar, longe dos prédios envidraçados do centro - um site que não existia há quatro anos.
Enquanto os jornais nos EUA encolhem e se desfazem de funcionários, e telejornais perdem audiência, um novo tipo de serviço de notícias na web está surgindo em várias cidades, tomando conta de parte desse nicho e forçando a mídia convencional a seguir as histórias descobertas pelos sites.
Aqui, temos o VoiceofSanDiego.org, que oferece reportagens sérias e originais de jornalistas profissionais - a alçada da grande mídia, mas sem os custos com papel e tinta. Desde sua fundação em 2005, operações similares apareceram em New Haven, Connecticut; em Minneapolis e Saint Paul, Minnesota; Seattle; Saint Louis; e Chicago. Outras estão a caminho.
Sua cobertura de notícias e profunda reportagem investigativa se destacam na paisagem da Internet, há muito tempo dominada por comentários partidários, fofoca, sátiras e jornalismo comunitário feito por amadores voluntários.
Segundo seus fundadores, o movimento recente alcançou uma massa crítica suficiente para a formação de uma associação planejada, angariando publicidade nacional e patrocínios que jamais conseguiriam sozinhos. Quase toda a semana, jornalistas frustrados do país inteiro ligam em busca de conselhos sobre como começar seu próprio canal de notícias online.
O Voice está realizando um trabalho significativo, focando sua pauta em reurbanização e outras questões, e colocando políticos e empresários locais na berlinda, disse Dean Nelson, diretor do curso de jornalismo da Universidade de Point Loma Nazarene, em San Diego. Eu os convido para as minhas aulas e os apresento como, Esse é o futuro do jornalismo.
Esse é um assunto de debate acirrado entre aqueles que acompanham de perto a indústria sitiada dos jornais impressos. Publicar online significa operar com metade dos custos de um jornal impresso, mas a propaganda online não é robusta o suficiente para sustentar a redação de um jornal.
Por isso, financeiramente, o VoiceofSanDiego e sites similares se espelham na mídia pública de rádio e TV, não nos jornais. Esses sites são corporações sem fins lucrativos, apoiados por fundações, doadores abastados, contribuições de leitores e um pouco de propaganda.
Novos sites sem fins lucrativos ou foco geográfico específico também florescem em outros nichos, como o ProPublica, dedicado ao jornalismo investigativo, e o Pulitzer Center on Crisis Reporting, que noticia problemas ao redor do mundo. Um grupo similar, o Center for Investigative Reporting, já tem 30 anos de existência.
Mas alguns especialistas questionam se a maior parte dos sites de notícias pode sobreviver essencialmente de caridade, e se é sensato depender tanto da boa vontade de alguns poucos benfeitores ricos.
Essas são algumas das questões sobre o futuro do negócio, disse Robert H. Giles, curador da Fundação de Jornalismo Nieman da Universidade de Harvard. Notícias online sem fins lucrativos precisam ser exploradas e experimentadas, mas também provar que conseguem sustentar um grande quadro de funcionários. Até mesmo os sites que recebem forte patrocínio dispõem de muito menos recursos que um jornal impresso da cidade.
As pessoas que administram os sites de notícias locais se vêem como apenas um futuro entre muitos. Os sites possuem uma relação complexa com a grande mídia, cujas falhas deram abertura para novas fontes de notícias e uma massa de jornalistas desempregados para trabalhar no novo nicho.
Ninguém aqui vê o declínio dos jornais com alegria, disse Andrew Donohue, um dos editores executivos do VoiceofSanDiego. Não podemos ser a maior fonte de notícias da cidade, pelo menos não num futuro próximo. Contamos apenas com 11 pessoas.
Quase todas elas são jovens, e algumas refugiadas da grande mídia. Os editores executivos - Donohue, 30, e Scott Lewis, 32 - adquiriram alguns anos de experiência em pequenos jornais antes de abandonarem o nicho impresso. Seu público ainda é pequeno, cerca de 18 mil visitantes únicos por mês, segundo o serviço de medição Quantcast. O maior site de notícias sem fins lucrativos, MinnPost, de Minneapolis e Saint Paul, e o Saint Louis Beacon, chegam a receber 200 mil visitantes por mês, mas esse número é apenas uma fração dos leitores dos jornais impressos locais na Internet.
O site VoiceofSanDiego é muito parecido com o de qualquer outro jornal, sendo freqüentemente atualizado com furos de notícia e organizado em grandes assuntos: governo e política, moradia, economia, meio-ambiente, escolas e ciência. Há alguns gráficos, muitas fotos e, em parceria com uma estação de TV local, alguns vídeos.
Mas, devido à escassez de recursos, o site é pequeno - estritamente local, seletivo em suas coberturas e sem os serviços eletrônicos de notícias que engordam a maioria dos sites jornalísticos.
O VoiceofSanDiego cresceu a partir de uma série de grandes escândalos municipais. Intendentes da cidade que aceitaram propina do dono de uma casa de strip-tease; o desvio de dinheiro de um fundo de pensão que quase levou a cidade à falência, com oficiais municipais acobertando a crise, são apenas alguns.
Um empresário local semi-aposentado, Buzz Woolley, sentiu raiva e frustração perante as revelações, os processos de fraude e as condenações criminais. Ele ficou especialmente indignado com o caso do fundo de pensão, que se desenrolou por vários anos e mais ou menos à vista de todos, mas que não recebeu cobertura da grande mídia.
Pensava, quem está prestando atenção? Woolley recorda. Por que não ouvimos sobre isso antes de se tornar um desastre?
Em 2004, através de conversas com o colunista veterano Neil Morgan, que havia sido demitido do Union-Tribune, foi criado o VoiceofSanDiego, com Woolley como presidente, chefe-executivo e, inicialmente, financiador-chefe.
A maior parte desse novo tipo de site de notícias tem um jeito de rebeldia juvenil, mas o MinnPost, sediado em Minneapolis, se assemelha a uma instituição de meia-idade. Seu fundador e chefe-executivo, Joel Kramer, foi redator e editor do Star Tribune, de Minneapolis, e seus principais redatores são refugiados do mesmo jornal ou de seu rival, o Pioneer Press, de Saint Paul.
O MinnPost é rico se comparado a outros sites - recebeu uma verba de US$ 1,5 milhão de Kramer e outros quando iniciou seu primeiro ano, e tem um orçamento anual de US$ 1,3 milhão - e é mais agressivo na venda de anúncios e arrecadação de contribuições dos leitores.
Os redatores e repórteres que trabalham em tempo integral recebem entre US$ 50 mil a US$ 60 mil por ano, segundo Kramer - um salário razoável, mas menos do que receberiam dos jornais concorrentes. O MinnPost tem apenas cinco funcionários em tempo integral, mas utiliza mais de 40 freelancers, o que permite a produção de reportagens freqüentes em assuntos como artes e esportes.
Se o MinnPost é a expressão da ordem, o New Haven Independent está mais para um grupo de guerrilha. O site não tem escritório e as reuniões são feitas em uma cafeteria. O fundador e editor, Paul Bass, que passou a maior parte de sua carreira em um semanal alternativo, trabalha em casa ou, ocasionalmente, pega emprestado uma mesa na redação de um jornal de língua espanhola local.
Além de assuntos dos âmbitos estadual e municipal, o Independent também cobre pequenas notícias locais, tendo recentemente feito uma série de artigos sobre pessoas que perderam suas casas em execuções hipotecárias.
Com um orçamento de apenas US$ 200 mil, o site conta com um pequeno quadro de funcionários - alguns ganham menos de US$ 30 mil anuais - e um reduzido grupo de freelancers e colaboradores voluntários. Eles não vendem anúncios, o que Bass considera ser impraticável.
Há espaço para diversas abordagens e somos a prova viva de que é possível fazer jornalismo relevante a baixo custo, Bass disse.
O Crosscut.com, um site de notícias local de Seattle, produz reportagens e comentários próprios, mas também agrega artigos de outras fontes noticiosas. O site foi inaugurado no ano passado e visava ao lucro, mas está em transição para se tornar sem fins lucrativos.
O VoiceofSanDiego escolheu outra abordagem, contratando uma equipe de jornalistas jovens e famintos em tempo integral, pagando salários competitivos em relação aos grandes jornais e dependendo menos de freelancers. Donohue e Lewis ganharam entre US$ 60 mil e US$ 70 mil no ano passado, segundo informações do imposto de renda.
Com um orçamento inferior a US$ 800 mil para este ano - quase US$ 200 mil a mais que no ano anterior - todos têm deveres dobrados. Lewis escreve a coluna política e Donohue trabalha com artigos investigativos. Mas a operação está crescendo e Woolley se diz convencido de que o modelo sem fins lucrativos é a melhor chance de sobrevivência.
Hoje a informação é um serviço público e também uma mercadoria, ele disse. Ela deve ser pensada da mesma forma que a educação e a saúde. Ela é uma das coisas necessárias para que a sociedade civil funcione, e o mercado não tem feito isso tão bem.
Tradução: Amy Traduções
Fonte: The New York Times/Richard Perez-Pena