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Brasileiros fazem de tudo para ter uma forma mais tranqüila de encarar a vida


Foto: Divulgação
Os habitantes das grandes cidades não param de correr. Aceleram no trânsito engarrafado, almoçam rapidamente e mal para não perderem tempo. Trabalham sempre com um olho no relógio. Enfim, vivem como se a vida não coubesse nas 24 horas de um dia. Só que essa rotina comum para quem vive nas metrópoles começa a ser lentamente modificada a partir de um movimento de um grupo que prega uma forma mais tranqüila de encarar a vida: o “slow life” (vida devagar em português).

Esse movimento, que nasceu no Japão, defende a idéia de que não se deve concentrar tanta energia em determinada atividade. Tudo o que ele defende é uma vida sem atropelos, trazendo propostas para uso mais prazeroso e equilibrado do tempo.

Colocando o pé no freio, movimentos mundiais deram largada ao culto à vagareza. Neles, desacelerar passou a ser a palavra de ordem. Em casa, no trabalho, nas relações e no ritmo interior, levar a vida com mais calma pode se transformar na tendência comportamental dos próximos anos.

São grupos como o italiano Slow Food, que defende a alimentação sem pressa; o Città Slow, ou cidades do bem viver, onde diminuir o ritmo é lei; o japonês Clube da Preguiça; a norte-americana Fundação Longo Agora; e mesmo o SuperSlow, filosofia esportiva que recomenda musculação em câmera lenta.

O movimento conta até com uma conferência anual, a da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, que usa a palavra alemã “eigenzeit” – tempo próprio em português – para resumir suas convicções. O evento acontece em Wagrain, cidade nos Alpes austríacos.

Mas, o que motivaria uma mudança de padrões tão brusca em pessoas que normalmente mantêm a urgência como marca de suas agendas? A incidência de doenças decorrentes desse estilo de vida é um dos motivos. Some-se a ela a insatisfação diante da incessante correria, sinalizam os especialistas. E, mesmo no cenário brasileiro, já é possível encontrar exemplos de quem deu de ombros para a louvação à pressa e decidiu seguir seu caminho num ritmo mais tranqüilo.

Doença da pressa
O movimento já ganha adeptos no Brasil, onde as pessoas começam a se reunir para discutir formas de viver sem tanta correria. Afinal, a cultura de fazer o máximo possível num mínimo de tempo, que começou a vigorar desde o século passado, começou a enfrentar enfáticos questionamentos.

Afinal, para que tanta pressa?
Para Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da International Stress Management Association (Isma), entidade internacional que estuda o estresse, esse movimento de desaceleração é fantástico, mas a realidade é que “nossa sociedade gratifica quem está ocupado todo o tempo. A idéia de que quanto mais correr melhor é muito forte”, analisa.

Uma pesquisa feita pela instituição com mil brasileiros economicamente ativos revelou que 30% deles sofriam da “doença da pressa”, apresentando sintomas físicos (hipertensão e problemas cardiovasculares), emocionais (angústia) e comportamentais (abuso do álcool). “São pessoas que se tornam agressivas se o carro começa a andar mais devagar e que tendem a empregar a bebida como um amortecedor da pressão cotidiana”, diz Rossi.

O estudo aponta que só 8% dos entrevistados se davam conta de que deveriam reduzir o ritmo de vida e estavam tomando ou já tinham tomado alguma providência para isso. Outros 13% achavam que deveriam ir mais devagar, mas não sabiam como fazê-lo.

Apesar disso, ela acredita que um reforço ao movimento pela desaceleração pode aparecer dentro das corporações. “As empresas notaram que a margem de erro de quem faz tudo ao mesmo tempo é muito maior. Isso poderá valorizar o trabalho feito com calma”, explica Rossi.

“É preciso olhar para si mesmo e fazer a distinção entre o que é importante e o que é necessário”, ensina o homeopata e pediatra Nicolas Schor, autor do livro “As doenças que você tem... E não sabe!”, que aborda distúrbios da modernidade.

Dicas para desacelerar

À mesa

Combata o fast food. Dê-se tempo para comer bem e preze as refeições tranqüilas com a família e com os amigos. Procure degustar os produtos frescos, sazonais e artesanais da região em que vive e as receitas transmitidas de geração em geração.

"O cérebro leva 15 minutos para registrar o sinal de que comemos demais, e se comermos depressa, o sinal chega com atraso. Nessas condições, podemos facilmente comer mais que o necessário sem perceber, por isso é melhor comer lentamente."

Na mente

- O fato de manter constantemente o cérebro ativo é um desperdício do nosso mais precioso dom natural. Ele opera maravilhas sob intenso estímulo, mas é capaz de muito mais quando tem a oportunidade de desacelerar um pouco de vez em quando.

Exercício físico

- Exercitar-se não precisa ser sinônimo de som e fúria – ou seja, fazer disparar os batimentos cardíacos até o limiar da tolerância não é a única maneira de modelar o corpo. Opte por atividades físicas que arrefeçam o corpo e aquietem a mente.

Saúde

- A reação à medicina rápida – com consultas que duram, em média, seis minutos – está ganhando impulso. Como em outras áreas da vida, na saúde, mais rápido nem sempre quer dizer melhor. Busque acompanhamentos alternativos e holísticos.

Trabalho

- Não trabalhe demais, é ruim para você e para a economia. Estudo da Universidade Kyushu (Japão) revelou que quem trabalha 60 horas semanais tem o dobro de chance de sofrer um ataque cardíaco do que quem trabalha 40 horas semanais.
Fonte: Agência Unipress Internacional/Carlos Antonio
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